terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Devaneio

Sinto o meu corpo levitar, um ruído crescente nos meus ouvidos quase ensurdecedor… completamente estagnado, tento mover os meus braços e as minhas pernas, mas não consigo… tento abrir os meus olhos, mas nada acontece.
Viajo por um mundo estranho, irreal, que nada me quer dizer, que não conheço, mas por algum motivo ali estou. Uma sala de brinquedos, repleta de crianças, algo um tanto quanto labiríntico, por onde eu sigo, a procura de algo, alguém, que me mostre, que seja familiar.
Um sonho, talvez.
Ao mesmo tempo uma verdade.
Ouço uma voz que me chama, alguém que me procura, alguém que parece saber quem sou. Vagueio perdido por entre blocos de lego gigantes, sinto que sou um simples objecto, uma marioneta que é manipulada… como se estivesse num jogo. Será um jogo? E ao mesmo tempo me pergunto e questiono: onde estou? Quem sou eu?
Já tenho dúvidas se serei mesmo eu ou simplesmente a minha mente.
Os enormes corredores inacabáveis daquela sala me levam para uma antiga biblioteca, aparentemente abandonada, onde muitas pessoas chamam por mim, pessoas que parecem esperar, onde a “voz” é sentida cada vez mais.
Onde estou? Que lugar é este? O que querem de mim?
Numa nova tentativa de abrir os olhos, movimentar o corpo, acordar, sou levado para um novo lugar, transportado para um novo mundo, cada vez mais triste, mais obscuro e solitário.
No crepúsculo de uma rua sem fim e deserta, novamente perdido, tento compreender, tento saber, ver… e vejo. No fundo da rua uma luz, um ser iluminado que parece flutuar. Outro mais à frente, não iluminado, alguém que se prepara para uma batalha… contra quem? Não sei. Contra o iluminado talvez…
Um cão corre do meu lado, uma criança que surge no meio daquele nada da forma mais fantasmagórica que poderia descrever. Quem são aqueles? Pergunto eu, e com um leve sorriso no rosto a criança sussurra para mim: guerreiros…
Olho novamente para tentar analisar aqueles dois estranhos seres, no meio daquele nada… Como por magia pareciam ter desaparecido, a escuridão aprisionou, soberanamente, a rua.
A luz parecia, agora, tomar conta de mim. A criança também sumira tão de repente como surgiu. E por fim noto: Agora sou eu o iluminado.
Olho para as minhas mãos que brilham. Desmaio.
Em questão de segundos tudo parece ter mudado. A rua está diferente, já não está tão escuro, pessoas estão a minha volta. Eu, ainda no chão, pergunto para um velho que está de pé a minha frente: onde estou? E com uma voz rouca e lenta ele me responde, seguida de uma longa gargalhada fúnebre: no purgatório. Assustado, desesperado, fico sem saber como fui ali parar, o por quê de estar naquele lugar… novamente aquela voz rouca e lenta surge: estás aqui porque ajudaste alguém. E um flash deste momento descrito fulmina a minha memória. Uma rapariga num quarto em chamas, eu do seu lado a tentar salvá-la de seu suposto destino.
Naquele instante tudo parece mais confuso do que poderia ser, mais atordoante e complexo. Um pavor agonizante, um desespero medonho.
O atordoar da minha mente. O meu coração bate cada vez mais rápido.
Sobressalto. Acordo.

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