segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sonho de Uma Noite de Verão

O verão chega ao fim assim como as coisas boas que lhe acompanham. A felicidade momentânea daquela estação, o alvoroço causado em nossas vidas pela manhã brilhante que nos inunda numa alegria solene e surreal.
A todo momento pareço estar a ouvir a tua voz.
Sorri.
Um sorriso que irradia na sua presença ou na ausência de um ser físico. Um sorriso de lembrança, memórias que fulminam e desvanecem naquele rosto aflito que lamenta pelo fim, sem expectativas de uma próxima estação. A deriva.
As noites quentes ao luar, divagando pensamentos sobre o mar, acompanhados pela brisa que tocava os nossos corpos e arrefecia… nada disso nunca fora um problema pois os nossos corpos envolvidos aqueciam a alma. Eu sou o mar. Inconstante e confuso como as ondas.
A luz do farol ilumina, ao fundo, o crepúsculo. O negrume dominante não atrapalha, pois o sorriso irradia, a alma abrasa e nos nossos sonhos, nos nossos desejos mais profundos somos estrelas em pleno manto celestial. E sempre que olhares para o céu lá estarei.
Sonho de uma noite de verão. Sonho do qual jamais quero acordar.
Comerei a maçã envenenada e ficarei a tua espera, repousando num sono profundo onde a realidade é vivida ao teu lado. Encontrarei as minhas asas e voarei se assim desejares, mas sempre na expectativa de que me encontres a pairar no indefinido.
Nada disso tem importância, pois continuarei a ouvir a tua voz.
Sorrirei.
Um sorriso que irradiará o meu caminho fazendo com que nos cruzemos… um dia quem sabe? Hoje ou amanhã talvez.
Os amores de verão só são temporários se assim o desejarmos, pois a busca é eterna e o sentimento infindável. O alvoroço pode tornar-se permanente e estaremos constantemente imersos naquela alegria solene e surreal. As nossas vidas uma constante alvorada.
Se assim será não sei… somente que sempre que olhares para o céu lá estarei, vivendo um sonho de uma noite de verão a espera que voes até mim e despertes com um beijo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Estrada Sem Fim

28 chamadas, 1 adeus, 2 pessoas magoadas, ponto final… opções, eliminar.
O ontem não passou de um sonho, uma metáfora hiperbolizada de uma acção repentina, onde os pólos se desencontram, a boca diz aquilo que não quer… a verdade, mas aquilo que não quer, e no fim, se é que se pode chamar fim, os números desaparecem das listas telefónicas.
O regresso é quase instantâneo, onde o coração bate tresloucado como se fosse sair pela boca, ao mesmo tempo que pensamos que tudo não passou de um sonho.
O rapaz chora enquanto conduz o seu carro até casa. Chora por pensar na vida, nos sentimentos e em tudo o que nos é capaz de causar. Chora pois sabe que fez o melhor, o que deveria ter sido feito.
A vida é uma mudança, uma incógnita para a qual nunca estamos preparados.
Passeios no parque, caminhadas, trocas de afecto… o rapaz tenta, por mais que lhe doa, tenta. Aquela sensação satisfatória um tanto quanto masoquista que se desenvolve por acreditar que aquela seja um amor impossível.
O tempo passa, é assim, nem tudo é o que parece, ninguém é como deveria de ser… eu não sou.
A inconsciência regozija o meu espírito ou parte dele. O resto já não se contenta tanto com aquilo que se está a passar. A confusão dos corpos, da alma, dos beijos e carícias… o desejo acima de tudo, tudo para além do inexplicável, para mim.
É difícil compreender eu sei, e sinto por isto… ao mesmo tempo o rapaz pensa. Pensa em tudo o que aconteceu e acontece, todas as suas expectativas, toda a sua espera. Uma música para ajudar quem sabe. Uma música que lhe diga tudo, que se mostre como um verdadeiro ser, nu, exposto para o mundo, como veio ao mundo. Pois nós, todos nós, somos dele e a ele pertencemos.
Ideias desorganizadas numa folha de papel, isto é o que elas são, nada mais. As mesmas ideias desorganizadas na minha cabeça, desgarradas, soltas, a procura de se encontrarem de modo a tornar o mais confuso dos raciocínios algo lógico.
Perdido? Deves estar assim como eu estou…
Aquela viagem de carro tornou-se algo estranho, silencioso e melancólico. Inexplicável sensação que habitava a presença daqueles dois seres. Algo tão bipolar como a esquizofrenia. Inconstante. O por quê não se sabe, ou não poderia saber. Já não gostava de se sentir culpado, mas o sentimento tornava-se cada vez maior. Infelizmente era assim…
O rapaz, quem sabe se continua a chorar enquanto conduz o seu carro até casa… eu não sei. A única coisa que sei é que não vale a pena derramar uma única lágrima por quem ele derramou, pois essa pessoa não sabe sentir, não sabe sequer quem é… tenta, mas nada acontece.
Não são as últimas palavras ainda, mas os olhos brilham e as lágrimas correm pelo rosto… opções, guardar.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pão de Mel

Ando a procura de saber quem sou, a deriva no cais, a espera do meu navio.
Continuo aquém da descoberta necessitando de ajuda, em busca de uma verdade da qual eu faça parte.
Não que viva uma mentira, não mesmo. Simplesmente parece que falta algo, que nem tudo está completo.
Doce pão de mel que saboreio e sacia o meu desejo. Quem me dera que tudo fosse assim tão fácil.
O sofrimento não existe é uma ilusão criada por nós. A mágoa é uma necessidade para sentirmos. Não que seja contra a sua existência, mas tento evitá-la. Por quê não tentarmos fugir dela, a mágoa, para sentirmos aquilo que é verdadeiramente profundo?
Doce pão de mel que preenche o meu vazio, com o seu sabor e sentimento. Não me sinto merecedor de tal pureza, mas desejo-o. Ambiciono inconscientemente.
Não espere.
Não quero que esperes.
A verdade não é bem assim, não é essa, mas...
Evitemos os sofrimentos e as tristezas, porque tudo isto é ultrapassável.
O pão de mel terá o seu sabor e brilho eterno, mas continuarei a não ser merecedor de tal.
A minha verdade...
Ando a procura de saber quem sou, perdido na estrada, em busca de um caminho.
Doce pão de mel...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Para a Poetisa

Sim, eu confio.
Podes não ser a água que bebo, a musa que me alimenta, o chão que me sustentam ou, muito menos, a sombra que me atormenta… a verdade é que és muito mais do que isso.
O passado pode não mais voltar, mas estará sempre presente entre nós. Nós tudo somos, presente, passado e futuro.
Não pensemos na certeza nada insegura do juntos para sempre, pois ele existe e eu acredito, e também sei que no fundo confias e acreditas.
Seguimos todos os caminhos juntos, sem perguntas, ou com muitas delas, mas sobretudo a procura das respostas, aquelas da qual a maioria parece fugir.
Já não vale a pena sofrer pelas memórias ou sequer sentir o peso do que já passou, para quê nos afogarmos nessas lembranças se podemos nadar em busca de uma nova história?
Agarra a minha mão e confia, porque agora eu quero sentir.
Não interessam os anos, as histórias e os sonhos.
Pensemos na felicidade pura, na saudade e o que dela restou.
Pertencemos.
Sentimos.
Lutámos.
Sofremos.
Amámos verdadeiramente.
E eu acreditei.
Maktub, estava escrito, porque nós escrevemos.
Estas inconstantes linhas das nossas vidas, são nossas e de mais ninguém. Podemos todos fazer parte do mesmo livro, mas não sabemos se seremos as personagens principais até ao fim.
Agora, confia em mim.
Calcemos os sapatos vermelhos e vamos viajar pela estrada de tijolos amarelos, conhecer pessoas, criar momentos e fazer história, ouvi dizer que lá o final é feliz.
Podemos cair, mas estaremos lá sempre para ajudar o outro a levantar.
O futuro nos aguarda e o horizonte já nos acolhe.
Sou o poeta das reticências, aquele que acredita que o coração bate por algum motivo, e parte dele também bate por ti.
Confia em mim, pois estarei sempre aqui a espera que a nossa história sem fim continue.

domingo, 2 de maio de 2010

Acordado

A capacidade que temos de confundir aquilo que é, o que se sente, com o imaginário, com o desejo torna-nos pessoas desconfiadas.
Por mais que se tente acreditar há sempre algo que nos faz pensar o contrário, ou mesmo nós queremos que a verdade não seja revelada, por isso simplesmente ignoramos e fugimos.
Os sentimentos fazem parte desta grande verdade, fazem parte da mentira do mundo, onde qualquer outra coisa torna-se mais importante. Digo por mim, perdi aquilo que sou, a verdade que ainda restava. O chão onde piso já não é mais poético, a estrada de tijolos amarelos não passou de um sonho inalcançável, pois hoje tudo o que existe são pedras e terra… fim.
Já não vale a pena descrevê-la, conjunto de perfeição divina, para mim: os seus olhos, os seus lábios, o seu sorriso… tanto faz. Qual castanho caramelizado, vermelho adocicado ou branco açucarado? Nada mais existe, não quero que exista.
Foste a minha droga é verdade, a minha cafeína, aquela que me mantinha acordado, ou pelo menos pensava que era o que fazias… na verdade estava fechado para o mundo, cego, num casulo em metamorfose.
Foste a minha droga é verdade, aquela que deveria ter consumido até ao último minuto, apanhado uma overdose e morrido na imensidão dos teus braços… a verdade é que nem tudo foi errado… morri a mesma, mas não foi de ti, e sim por ti.

A quem diga que está tudo escrito, eu simplesmente não sei… talvez por isso chamem vida a algo tão longo e inesperado, pois é isto o que somos e esperamos.
Talvez mais uma confissão ou, quem sabe, uma saudação a verdade, ao amor, a nós próprios: seres inconvenientemente sentimentais que amam e vivem. Acredito que ela também seja assim, por isso espero acordado, fora do casulo.
A verdade não fica por aqui, somente parte dela.
A mentira é passado.
Ela… não sei.
E eu continuarei acordado fora do casulo, a procura.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Confissão e algo mais

Sinto-me violado. O meu corpo como se tivesse sido abusado, a minha alma arrancada e atirada a lama. Tudo aquilo que não esperava, tudo por culpa própria… é isso que nos acontece quando acreditamos demais em alguém, quando confiamos com todas as nossas convicções, quando fechamos os olhos e seguimos em frente, sem medos e receios, sem pensar duas vezes, simplesmente porque acreditamos… depois é assim que nos sentimos, assim como me sinto, violado… pelo mundo, por aquele alguém em especial, e entretanto, algo morreu interiormente.
Sinto-me violado. A minha cabeça como se tivesse sido atacada por imagens de momentos imagináveis, o meu amor-próprio igualmente arrancado e atirado a lama. Tudo o que acreditava, uma desilusão… é verdade, às vezes erramos e com isso aprendemos, ou pelo menos devemos aprender… confissões que fazemos e esperamos que sejam compreendidas… confissões que são feitas e que até acreditamos que sejam verdadeiras, mas nem sempre é assim, somente fala-se da boca para fora, isso sim é uma verdade.
Um pedido e nada mais… assim como se pede um copo de martini no balcão, o garçon realiza sem nada questionar, mas como é óbvio, no fim agradece o seu pagamento… um simples a parte da questão.
Meu Eu estendido na banheira, imóvel, morto… os pensamentos fluem, correm como a água que tenta lavar o meu corpo, mas não consegue… sinto-me sujo. Isso, sujo, é como estou… sujo de ideias, lembranças, pedidos… fui violado. O amargo toque de estranheza naquilo que falo, eu sei, mas não há outro modo de descrever, dizer a realidade… é possível que a realidade seja aquilo que não posso dizer, ou seja, uma descomunal mentira.
A mentira: inimiga de muitos, religião de outros… acredito que mesmo eu seja atacado por esta praga, esta peste que nos contamina o organismo, entranhando-se pelos meus poros a dentro como o fumo, por mais que evite, que tente fugir, não consigo… não que seja impossível, simplesmente não consigo, porque a verdade às vezes, na maior parte das vezes, dói e magoa profundamente, humilha-nos e desfaz-nos perante o mundo. Não que seja contra a verdade, mas sou contra as pessoas, contra as suas verdades.
Uma simples conversa era o suficiente para tudo resolver… uma simples conversa era tudo o que eu queria, tudo o que peço… acto simplório ao qual fugimos, mas que, a meu ver, faria toda a diferença.
Por mais crédulo que seja, as coisas não são fáceis, a aparência não é o suficiente para mim, a partilha tão pouco… eu sei, egoísmo meu pensar assim, mas praticamente já é aquilo que sinto… lutar por atenção não faz parte de mim, se o faço não tenho esta noção, não vivo esta realidade, e, as pessoas que o fazem, ridículas, sem dúvida, a única coisa que posso dizer.
As coisas vão mudando aos poucos, não que seja de propósito, mas acontece… culpado, não sei se há, somente acontecimentos, situações, pequenos detalhes que poderiam ser evitados, mas nada que seja irremediável. Uma simples conversa acho que era o suficiente, talvez nem pedisse tanto.
No entanto, nada digo e evito, sinto quase como se não valesse a pena, pois tenho medo de estar mais uma vez a exagerar. E, novamente me refiro a ele, o medo, este sim um companheiro inseparável e não só meu. O medo, o egoísmo, transformações e efeitos secundários de bons acontecimentos e não são os únicos. Destruidores da ilusão do mundo perfeito, destruidores da minha ilusão.
Por mais que se ouça que está tudo bem perante determinada situação, nunca está… existe sempre um mínimo ponto da questão que precisa ser resolvido, conversado… pelo menos acho que sim… nem que seja para ouvir o mesmo que já se ouviu antes, mas para quê perder tempo se as coisas já não podem ser modificadas… fui violado e como costumo dizer: é a vida… havemos de seguir em frente, acreditarmos fielmente, realizarmos pedidos, errarmos novamente, sentirmo-nos violados pelo mundo e por aquele alguém em especial, mas não desistirmos, porque isso sim é a vida, um grande ciclo repleto de obstáculos e um grande caderno de confissões.

Devaneio

Sinto o meu corpo levitar, um ruído crescente nos meus ouvidos quase ensurdecedor… completamente estagnado, tento mover os meus braços e as minhas pernas, mas não consigo… tento abrir os meus olhos, mas nada acontece.
Viajo por um mundo estranho, irreal, que nada me quer dizer, que não conheço, mas por algum motivo ali estou. Uma sala de brinquedos, repleta de crianças, algo um tanto quanto labiríntico, por onde eu sigo, a procura de algo, alguém, que me mostre, que seja familiar.
Um sonho, talvez.
Ao mesmo tempo uma verdade.
Ouço uma voz que me chama, alguém que me procura, alguém que parece saber quem sou. Vagueio perdido por entre blocos de lego gigantes, sinto que sou um simples objecto, uma marioneta que é manipulada… como se estivesse num jogo. Será um jogo? E ao mesmo tempo me pergunto e questiono: onde estou? Quem sou eu?
Já tenho dúvidas se serei mesmo eu ou simplesmente a minha mente.
Os enormes corredores inacabáveis daquela sala me levam para uma antiga biblioteca, aparentemente abandonada, onde muitas pessoas chamam por mim, pessoas que parecem esperar, onde a “voz” é sentida cada vez mais.
Onde estou? Que lugar é este? O que querem de mim?
Numa nova tentativa de abrir os olhos, movimentar o corpo, acordar, sou levado para um novo lugar, transportado para um novo mundo, cada vez mais triste, mais obscuro e solitário.
No crepúsculo de uma rua sem fim e deserta, novamente perdido, tento compreender, tento saber, ver… e vejo. No fundo da rua uma luz, um ser iluminado que parece flutuar. Outro mais à frente, não iluminado, alguém que se prepara para uma batalha… contra quem? Não sei. Contra o iluminado talvez…
Um cão corre do meu lado, uma criança que surge no meio daquele nada da forma mais fantasmagórica que poderia descrever. Quem são aqueles? Pergunto eu, e com um leve sorriso no rosto a criança sussurra para mim: guerreiros…
Olho novamente para tentar analisar aqueles dois estranhos seres, no meio daquele nada… Como por magia pareciam ter desaparecido, a escuridão aprisionou, soberanamente, a rua.
A luz parecia, agora, tomar conta de mim. A criança também sumira tão de repente como surgiu. E por fim noto: Agora sou eu o iluminado.
Olho para as minhas mãos que brilham. Desmaio.
Em questão de segundos tudo parece ter mudado. A rua está diferente, já não está tão escuro, pessoas estão a minha volta. Eu, ainda no chão, pergunto para um velho que está de pé a minha frente: onde estou? E com uma voz rouca e lenta ele me responde, seguida de uma longa gargalhada fúnebre: no purgatório. Assustado, desesperado, fico sem saber como fui ali parar, o por quê de estar naquele lugar… novamente aquela voz rouca e lenta surge: estás aqui porque ajudaste alguém. E um flash deste momento descrito fulmina a minha memória. Uma rapariga num quarto em chamas, eu do seu lado a tentar salvá-la de seu suposto destino.
Naquele instante tudo parece mais confuso do que poderia ser, mais atordoante e complexo. Um pavor agonizante, um desespero medonho.
O atordoar da minha mente. O meu coração bate cada vez mais rápido.
Sobressalto. Acordo.